22 | Domingo 5 Maio 2013 | 2
vera que teima em não aparecer lá fora, ou um céu estrelado como difi cilmente se verá por estes dias nas noites de Seul.
Os grupos vão-se sucedendo. Entra G.Na e seguimos o seu conselho: vamos esquecer a língua que estamos a ouvir (embora se distin- ga ali no meio um “beautiful girl”). Podíamos estar em qualquer lado do mundo, sim.
Lá estão as raparigas tailandesas. O seu BtoB entrou em palco, e muitas gritam, elas gritarão também. Mas os berros serão ainda mais ensurdecedores quando aparecerem os Infi nite, com as suas calças e blazers verdes para o seu Man in Love. Haverá também ra- pazes a chamar alto e bom som pelos nomes das cantoras do Girl’s Day, que com danças insinuantes misturam uma dose de erotismo com outra de infantilidade.
Não há palmas, só gritos. Fãs fazem cora- ções com as mãos. Outros escrevem os nomes dos seus ídolos no tablet que exibem no ar.
Oppa Kpop style.
O
CJ Entertainment é o principal grupo de televisão por cabo, com 20% das audiências. Tem 18 ca- nais de entretenimento — muita música, como o M Countdown, comida, telenovelas, sitcoms — e produz mais de 100 programas por ano. Lee Jay-hyun, presiden- te do CJ Group (ao qual o CJ En- tertainment pertence), viu a sua fortuna aumentar 70%, para os 1,7 mil milhões de dólares, no ano passado, noticiou recente- mente a Forbes.Nos anos 1990, a música e a produção tele- visiva começaram a extravasar as fronteiras da península. Jornalistas chineses usaram o termo hanliu, hallyu em coreano, para se re- ferir ao que estava a acontecer: uma “onda coreana”. O Governo de Seul tem aproveita- do esta maré para que quando se pense na Coreia do Sul não surja apenas a imagem dos bons números do PIB (é a quarta economia asiática), ou o confl ito com a errática Coreia do Norte. A “onda coreana” faz parte do seu softpower, de tal forma que a nova Presidente Park Geun-hye falou dela quando tomou pos- se, em Fevereiro passado.
Assim de repente parece ser fácil acredi- tar que os sul-coreanos são intrinsecamente optimistas. Os noticiários são inundados de ameaças de ataque do regime coreano, nas estações de metro há máscaras de gás em vitrines — “partir em caso de contaminação radioactiva ou bioquímica” —, jornalistas es- trangeiros procuram incessantemente sinais de pânico, ou pelo menos de medo; mas nas ruas o que se vê são jantares de amigos, sacos de compras a balançar, cabeças levantadas e conversas animadas.
Por isso perguntamos a Kim Eun-mee, di- rectora do Instituto para o Desenvolvimento e Segurança da Ewha Womans University: há mesmo um optimismo generalizado?
“De todo. A geração mais velha passou por muito: a colonização japonesa, a guerra [de 1950-53 com a Coreia do Norte], depois a di- tadura [de 1961 até 1987]. Há um grande mar de sofrimento”, diz no seu espaçoso gabine- te, com duas janelas a dar para uma pista de
corrida. “A nossa música tradicional — que eu acho muito parecida com o fado — vem das entranhas, lá do fundo da terra. Os coreanos têm uma infelicidade enraizada.”
E daqui a conversa com Kim — que fez um estudo sobre o consumo das exportações culturais sul-coreanas na Ásia, South Korean Culture Goes Global: Kpop and the Korean Wa- ve (escrito em colaboração com Jiwon Ryoo, da Newsweek Korea) — segue imediatamente para a questão de género: “Qualquer mulher coreana dirá: somos uma sociedade ainda muito dominada pelos homens. As mulheres
DR LEE JAE WON/REUTERS
não tinham o seu próprio nome, ou nunca eram chamadas por ele, eram sempre apre- sentadas como a mulher de, a fi lha de, a mãe de. Nunca por elas próprias. Em alguns am- bientes ainda acontece, mesmo que não seja ofi cial. Se tivessem uma opinião, tinham de a suprimir.”
(Uma imagem radicalmente diferente da que passa nos videoclips de raparigas seminuas a exibirem o seu sex appeal – ainda que, nota Kim, também pareçam muitas vezes “subjuga- das”, para agradar ao público masculino, logo,
“sem afi rmação de poder e perpetuando um