1 MIN JUNSEONG
Faz alguns anos que deixei de gostar do Natal. Por uma razão apenas, é que gosto tanto do Natal, que hoje em dia não o suporto. No entanto, enquanto católica, não deixo de o festejar assim como de cumprir com as tradições: os filhos na consoada, as comidas tradicionais, a missa do galo. E no fim acabo sempre com uma sensação estranha. Um misto de dever cumprido e de prazer.
Cada mês de Novembro, quando as lojas se começaram a encher de bolas coloridas e luzes intermitentes, começo a ficar nervosa. A loucura das decorações a compra dos presentes. A TV a falar a toda a hora se se comprou mais ou menos, se os portugueses gastam mais ou menos bacalhau. Chegam as mensagens a combinar os jantares natalícios. Gente que nem nos lembramos que existe mas que nesta época se assume com uma intimidade e necessidade de partilha: colegas de trabalho, amigos de infância, amigos do ginásio, amigos do coro, amigos do tempo do liceu, amigos da faculdade, amigos de ontem, de anteontem, de hoje e de amanhã.
A caixa de correio eletrónico e a página de Facebook enche-se com mensagens copiadas da Internet com imagens de árvores de natal, bonecos de neve, e pais natais por todo o lado. E cada vez fico mais irritada ao longo do mês.
Entra Dezembro. Por hábito, dia 8 faço o presépio e a árvore de natal. O presépio por devoção, a árvore por obrigação. Pelo caminho, ainda mando alguns poucos postais de Natal personalizados.
Prepara-se a casa, compra-se o melhor bacalhau da Noruega encomenda-se a penca de Trás-os- Montes, o melhor peru recheado com castanhas, o melhor bolo-rei, o pão para as rabanadas da melhor padaria, e que não falte açúcar, canela e todos os outros ingredientes necessários aos doces da época.
Mas o que tem a ver este assunto do meu Natal com a Coreia?! Nada e tudo.
Passo a explicar. Fruto de tudo quanto acima falei, a cabeça começa a rodopiar, pensando como vou passar mais um Natal em que fique alguma coisa mais do que presentes e comida. Uma lembrança, uma partilha, uma gargalhada, uma história para contar.
Assim foi no Natal de 2012. Lembrei de convidar alguém que estivesse só naquela noite e que gostasse de a partilhar com uma família tipicamente portuguesa, assumidamente tripeira.
Depois de falar em casa e sendo os 4 membros da família estudantes universitários, surgiu a ideia de convidar um estudante de Erasmus que por uma ou outra razão não poderia ir a casa nessas férias.
2 Não foi fácil. A grande maioria dos desses estudantes são europeus e regressam à família nessa época. Os brasileiros ficam, os africanos ficam, mas juntam-se em comunidade. Contactadas as 4 faculdades, parecia não haver um único aluno que precisasse de ser acolhido nessa noite. E resolvemos ficar os 4 da família mais uma vez.
Até que um dia recebo um e-mail da Universidade onde estudo. Havia um aluno que ficava no Porto e que gostaria de passar o natal com uma família. Imediatamente respondi que sim e passei no departamento responsável:
- Continua interessada? Temos um aluno Sul Coreano que não vai a casa nas férias e que gostaria de saber como é o natal em Portugal… Está disposta a acolhe-lo no dia 24 à noite?
Imediatamente respondi que sim e saí com um post-it amarelo com um número de telemóvel e um nome. Min Junseong.
E de repente, acendeu uma luz estranha cá dentro.
Sul Coreano??? Que sei eu sobre a Coreia? Nada, ou quase nada. Samsung, Hyundai foram as primeiras palavras que me vieram à memória. Seul a capital, um país da Ásia oriental, uma vaga memória de uns jogos olímpicos. E agora Maria pensei, que vais fazer com um miúdo Sul Coreano? O que come? O que fala? Sobre que vamos conversar?
Mal cheguei a casa, lancei a novidade à hora do jantar.
- Sul Coreano, sim. Apenas sei que está no Porto por ano, estuda economia e é tímido mas muito simpático”.
Curiosamente e contra o que esperava, a reação foi a melhor.
- Boa!!!!! Vai ser fantástico! Quem sabe um dia ainda vamos até à Coreia?!?!?!
Ir até à Coreia?!?! Nunca tal me havia passado pela cabeça. Faço os possíveis e os impossíveis para viajar, uma espécie de obsessão transmitida pelo meu Pai. Viajante incansável, sempre nos transmitiu as vantagens de uma qualquer viagem. Conhecimento, formação, abertura de mente e de formação. Os livros são imprescindíveis em tudo na vida. Mas uma viagem vale por dezenas de livros. Segui os seus passos, hoje meus filhos seguem os meus. Viajantes incansáveis, sempre a pensar na próxima saída.
Mas a Coreia? Bem, quem sabe, um dia… e esqueci.
Começou então a troca de sms’s entre mim e o Junse nome porque era conhecido entre os colegas. O inglês foi a língua utilizada para comunicar. Mas logo na primeira mensagem ficou quebrado o gelo. Um “muito obrigado” em Português, encerrava a mensagem junto a um smile.
Não houve hipótese de nos conhecermos pessoalmente antes do esperado dia, pelo que fui trocando com ele as minhas ansiedades via telemóvel. Será que comia carne? Bacalhau? Doces?
Lá fui descrevendo as idades e estudos dos meus filhos, até a troca de moradas.
3 Nesse dia de consoada, foi a maior confusão. Trabalhei até às 19h, ainda passei no supermercado e vim fazer o jantar. Certo que a mesa estava posta e algumas coisas adiantadas, mas era muito, muito tarde. Pedi ao meu filho que apanhasse o Junse no caminho para casa e parti de avental para a cozinha. Ele havia dito que comia de tudo até gostava de experimentar.
Mas bacalhau? Fiquei na dúvida e como qualquer dona de casa cuidadosa, resolvi não correr riscos com o meu convidado e além de tudo o mais, ainda fui assar uma perna de peru.
Entre bacalhau, pencas, batatas, ovos, cenouras, peru, batata assada, castanhas, farofa, esparregado, rabanadas, doce de ovos, encontrava-me eu quando a porta de casa se abriu.
Com avental, cheiro a fritos e cozinhados, fui recebe-lo semi envergonhada por não ter tudo pronto à sua chegada.
- It smells so good... disse ele, e o gelo quebrou logo ali.
Deixei-o na sala com os três filhos e retornei ao meu lugar de cozinheira.
Gradualmente, começou a animação da conversa vinda da sala, entre queijo da serra e frutos secos com a ajuda de um pouco de vinho do Porto. Os risos passaram a risadas, e rapidamente se ouviam gargalhadas. Espreitei, e Junse curioso fotografava tudo o que eu havia posto na mês para aperitivos e tudo provava.
Fomos para a mesa. Aí foi o momento entre mim e a Coreia. Entre o jantar e as minhas ansiedades de conhecimento de mais um País do Oriente, não deixei o pobre do rapaz sossegado um minuto.
Onde vives? Em que trabalham teus Pais? O que se come? Queres canja de galinha? Como é a cultura por lá? Um bocadinho de peru? E a religião? Queres vinho? Onde estudaste? Gostas de pinhões? É semelhante ou diferente ao que se faz por aqui? Queres mais um pouco de bacalhau? Como são os museus? Mais um pouco de penca e ovo? De que vive a Coreia? Posso servir as sobremesas? Que fazes aos fins-de-semana? Rabanada? Qual o horário de trabalho?
Bolo-rei? E o clima? Aletria? Como se diz obrigada e bom dia em coreano? Doce de ovos?
Quantos habitantes? Como se vive na Coreia? Frutos secos? Como é a paisagem? Café? E aquela dança da moda, não é de um Coreano? A escrita é difícil? Escreve o meu nome em Coreano…
Meia-noite, já é meia-noite…. E tanto para dizer. Na verdade, a conversa foi intermediada pelas fotografias a tudo quanto vinha para a mesa e receitas. Sim, receitas pois Junse provava tudinho e perguntava como se fazia.
Nesse ano não houve lugar a missa do galo. O tempo passou tão rápido, que não demos pela sua passagem. Mais um pouco de vinho do Porto, fotografias de família e claro, um presente para o nosso amigo. Uma agenda / diário para registo da sua vida em Portugal Dentro,
4 fotografias da cidade, da “nossa” universidade, da família. Uma recordação útil e fácil de transportar ate à Coreia.
O tempo era tão curto e tão rápido, que quando chegou a hora de sair para levar Junse a casa, parecia que tinha passado apenas uma hora em vez das 6 que havíamos estado juntos.
-Will you came and visit me in Korea? Nem respondi sim, nem respondi não... A vontade de dizer sim era enorme, mas a realidade dizia-me para não me comprometer. Ficou o convite e o talvez.
Não o voltei a encontrar e partiu para casa um dia.
Os contactos via Facebook mantiveram-se. Até hoje sigo a sua vida junto da família. Não interfiro muito, trocamos pontualmente mensagens, mas devoro todas as fotografias que publica. A sua casa, a família, as comidas, a cidade, o País, o seu percurso. Enfim, Junse é um pedacinho da Coreia em Portugal, pelo menos no meu computador.
Um ano passou. Muito falamos dele durante o jantar de consoada, revisitaram-se as fotografias.
Dias depois, recebo um envelope com um cartão de boas festas. Junse não havia esquecido a noite de consoada que connosco passou. Enquanto ia lendo o cartão percebi que tinha havido alguma coisa mais do que uma noite bem passada. As lágrimas caíram-me cara abaixo através da descrição que ele fazia das memorias daquele jantar, do quanto lhe ficamos na memória. De repente tive aquela sensação que dizem só os Portugueses ter, mas que outros podem sentir, Saudade. Saudade de Junse, saudade de uma Coreia que não conheço.
E de novo o convite.
- Maria, will you came to Korea one day?
Sim, um dia quem sabe te irei visitar a Seul. Mataremos as saudades. Conhecerei o teu País e tenho a certeza que serei tão bem recebida quanto dizes ter sido na minha cidade, o Porto.
Esqueci de dizer, Junse tem 25 anos, eu 52.
A amizade não tem idade, não tem tempo, não tem lugar.
Maria José Távora
Foz do Douro, 13 de Janeiro de 2014
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